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PLACA NA ESTRADA DE CONCEIÇÃO DA BOA VISTA NAS PROXIMIDADES DO COLINA CLUBE

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quinta-feira, 15 de novembro de 2007

TEMPOS NO GINÁSIO DE RECREIO

Armando Sérgio Mercadante

Na fotografia Benedito Álvaro Lima o nosso

grande Bené.


“- Aposto que foi o Álvaro: porcão, atrasadão e não vai passar e ano!” Essas palavras históricas foram ditas pela Profa. Maura de Castro, em sua aula de História na 1ª série ginasial de 1960 do Ginásio de Recreio. Durante suas explicações, o Álvaro (Bené) soltou um pum (naquela época falávamos peido). Profa. Maur imediatamente disse: “- Aposto que foi o Álvaro: porcão, atrasadão e... não vai passar de ano!”. Já se passaram 43 anos e as palavras da nossa professora permanecem vivas em nossas lembranças.

Na visão psicanalítica uma coisa puxa outra, e numa puxada lembrei-me do Leleno atirando uma carteira (é de sentar mesmo) pela janela. Sr. Carlito, pai do nosso querido Maçã, (Valcir) passava exatamente naquele momento pela Rua Botafogo. E aí...

Outra passagem antológica ocorreu novamente com o Benedito. Numa aula de Geografia, quando o Prof. Wadson Soares Brum arguia um aluno e ele demorava em responder, Dodoca disse: - Faz força que sai! Benedito, mais uma vez, soltou um estrondoso pum. Dodoca, com sua voz empostada, falou: - Benedito, não pedi para você fazer força!

Numa aula de Matemática do Prof. José Marcos da Silva Britto, outra vez o nosso Benedito Bacurau assumiu seu papel de protagonista de mais um delicioso episódio. Como sentava próximo ao quadro-negro , enquanto o nosso professor explicava a matéria, jogou uma bala para o Walber Coutinho (Sete Flechas) que ocupava a última carteira. Ao virar o corpo para atirar a bala foi pego em “flagrante delito” pelo Zé Brito. Castigo: trazer no outro dia 500 gramas daquelas balas mais baratas compradas na venda do Celino. Foi uma cena memorável: o Benedito sentado na diretoria chupando as balas, quase colocando as tripas para fora e pedindo pelo amor de Deus ao José Brito para suspender o castigo, pois não suportava mais de tanto enjôo. Nosso Diretor disse rindo:

- Joga mais bala durante as aulas Benedito!

Leleno do Bitão era um aluno “exemplar”. Ia para as aulas só com o uniforme. Não levava caneta, lápis, caderno, mata-borrão (naqueles tempos usávamos o mata-borrão ) e os livros comprados na Livraria Pastor João Wendling Duarte. Cumpria com “suas obrigações de estudante” graças à solidariedade dos colegas que sempre emprestavam o material necessário. Nos dias das provas, sentava atrás do Marco Antônio Magalhães, para clonar sua prova. Se ele negava, espetava o seu bum-bum com a ponta do lápis. Pobre Marco Antônio! O jeito era inclinar o corpo para o lado e deixar o Leleno copiar as respostas.

Continuando na lógica psicanalítica, lembrei-me do nosso grande professor de História Professor Pastor João Wendling Duarte. Usava umas expressões geniais. Quando um aluno conversava durante as aulas, arregaçava as mangas da camisa e dizia: - “Você quer provar a força de um comedor de cebolas?”. Chamava o Pedro Paulo do Daé de Pedro Paulo Defunto por ter sido pego colando. Certa vez, durante sua aula, o Timóteo apareceu por detrás da vidraça da janela que dava para o pátio da frente. Sr. João, tapando os olhos com a mão disse: - Não olhem para trás. É o indivíduo perverso que está lá. Chamava o aluno colador de “sepulcro caiado”. Dava suas aulas sobre História Antiga com entusiasmo, competência e trajando seu tradicional terno e gravata.

Dona Nice, nossa grande mestra, com sua competência e rigor nos mostrou, em suas aulas de Geografia, o quanto era importante a disciplina para nossas vidas. Dona Lia, com sua paixão pela França, foi um mestra moderna. Gostava de ser chamada de Madame Lia. (pronunciava-se Liá em francês). Não entregava as notas após as provas. Usava a recuperação paralela, recurso inexistente naquela época, que adotava a segunda época após as provas finais para o aluno que não conseguisse média. Dava aulas particulares de graça em sua modesta residência para os que encontravam dificuldade em aprender o Francês. No final do ano, os reprovados eram convidados a cantar LA MARSEILLAISE, Hino Nacional Francês, composto por Rouget de Lisle em 1792, - “Allons, enfants de la Patrie,/Le jour de gloire est arrivé!/Contre nous de la tyrannie/L’etendart sanglant est levé!”(...) - e jurar que iriam estudar com seriedade no próximo ano. Quem soubesse cantar e fizesse o juramento passava de ano. Até hoje sei cantar o hino da França.

Era uma festa quando Madame Lia procurava, durante suas aulas, pelos óculos que sempre estavam na sua testa. Amava o Francês. Seu sonho era conhecer a França. (Como gostaria de ter realizado seu sonho!) Ensinava com paixão. Jamais esquecerei das canções que ensinava com entusiasmo: “Au clair de la lune,/ mon ami Pierrot,/Prête-moi la plume,/ Por écrire un mot./Ma chandelle est morte,?Je n’ai plus de feu/Ouvre-moi ta porte/Pour l’amour de Dieu”. Ou, a tradicional, “Frère Jacques, Frère Jacques/Dormez-vous, dormez-vous?/Sonnez les matines, sonnez le matine/Ding, ding, dong./Ding, ding, dong”.

Em 1963 concluímos a 4ª série ginasial. Estávamos felizes. Um festa de formatura era um acontecimento importantíssimo em nossa pequena cidade. Missa, sessão solene de formatura, baile com a tradicional dança da valsa pelos formandos. A formatura aconteceu no dia 8 de dezembro de 1963. Nossa jornada estudantil em Recreio havia terminado. Teríamos que procurar outras cidades para continuar nossos estudos. Fui para Ubá com a Osmir e o Blanair.

Receberam o Diploma de conclusão do Curso Ginasial: Ademar Buonincontro Meireles, Aluizio Germano Castro dos Santos, Armando Sérgio Mercadante, Wil Madson Soares Almeida, Marize Terezinha Soares Almeida, Osmir de Oliveira Carvalho, Maria Elvira da Silva Brito, Blanair Torres Loureiro, Catarina Ferreira de Medeiros, Marco Antonio de Magalhães, Pedro Paulo Neto Albuquerque, Leila Maria Vargas Ferreira, Eliana Cerqueira de Oliveira, Geraldo Ernesto de Oliveira Filho, Edeia Ferreira da Silva, Hélio Ferreira Vicente, João Batista Mourão Andries, Marcelo Reiff Mortani, Blenda Loureiro Torres, Maria do Carmo Tavares, Stela Maria Muniz Panza, Terezinha Ferreira de Medeiros, Luiz Heleno Albuquerque e Nelson Antonio Loçasso de Paula.

Belo “recuerdo” Zé Dilton. Quando você saiu sentimos sua falta. Afinal de contas a dupla famosa ficou desfalcada: Maria Chiquinha perdeu o seu Genaro meu bem.

Ao Armindo Torres meus cumprimentos pelo excelente artigo “colocando os pingos nos is” e resgatando fatos que marcaram profundamente nossa história, pessoas e famílias que sentiram na pele a força e o poder da repressão. Só quem viveu com consciência crítica “os anos de chumbo” pode compreender as lágrimas da nossa “Pátria amada, mãe gentil”. Só quem assistiu a última transmissão ao vivo da TV Tupi, com seus artistas e funcionários em lágrimas implorando pelo não fechamento da emissora, pode avaliar a dor das “Marias e Clarices” cantada na música o Bêbado e o Equilibrista.

“O sentimento que rega o perdão não comunga com o egoísmo, com a arrogância, com a intransigência, com a intolerância, com o preconceito, com a prepotência. Ao contrário, a aceitação e a prática do perdão iluminam o caminho da convivência saudável, madura e verdadeiramente fraterna. É de sentimentos fortes e despojados como o perdão, dentre outros, que afloram o altruísmo, a filantropia, a caridade, a humildade, a doação” ( Pedro E. Ferreira Dorigo). Muitas “Marias e Clarices” já perdoaram aqueles que usaram a repressão, a tortura e a humilhação contra seus filhos, esposos, amigos e contra a nossa “Pátria amada, mãe gentil”. Perdoar sim. esquecer jamais e odiar nunca! Não podemos permitir que seja apagada da memória do nosso povo o sofrimento daqueles que sonharam com um Brasil solidário, sem fome, sem injustiça e com igualdade social, pagando com a própria vida e com o sofrimento pelo direito de pensar e defender suas idéias. É essa uma das funções da História: buscar no passado lições para que as novas gerações não repitam os mesmos erros no presente.

Se recordar é viver, vamos recordar enquanto ainda temos tempo. Pensando bem, somos jovens de cabelos grisalhos. “A gente nem imagina quanto cabe de saudade no peito da gente, há sempre uma saudade puxando outra. Parece mesmo que saudade anda de mãos dadas. Ainda bem!”. ( Merré Merij) E como anda Merré! “Felizes de nós que temos infância pela frente e para trás. Somos privilegiados por resgatar nossa infância”. (Gueguê). Com toda certeza Gueguê. Feliz aquele que pode recordar com alegria da sua infância.

2 comentários:

elizabeth disse...

É com prazer q li os fatos comentados sobre o Ginásio de Recreio e me levou de volta ao passado,algumas pessoas citadas eu conheci e me viram criança.Estudei o primário na escola dos ferroviários e depois fui para o ginásio de onde tenho lembranças felizes,fui aluna nos anos 70 e 71.
Meus pais amados, Augusto Maria e d. Maria Mendes.Abraços a todos.

EMA disse...

Parabéns pelos fatos contados sobre o Ginásio de Recreio.
Fui aluna nos anos de 70 e 71 e tenho muitas lembranças felizes de todos c quem convivi alunos e professores.Mas tenho q citar q fiz o primário na escola dos ferroviários a melhor fase de minha vida,meus pais adotivos srºAugusto Maria e D. Maria Mendes la da grotinha.Abraços a todos.