Pai Bendedito
de Aruanda
Tem por finalidade publicar artigos,fotografias, informações e documentos sobre Recreio e o autor.
Pai Bendedito
NOSSAS BENZEDEIRAS
Armando Mercadante
“Não acredito em bruxas.
Mas que existem, existem”
(Ortega y Gasset)
Com meus olhos arregalados e o coração atropelando o compasso acompanhava atentamente todos os passos do ritual das minhas benzedeiras. Por mais que me esforçasse não conseguia entender a linguagem que ela usava para quebrar o quebranto ou cortar o cobreiro. Naquela época toda criança que se prezasse tinha que ter a sua benzedeira. Eu tive três: Catarina, Conceição e Amélia. Era só ficar com abrição de boca, insônia, quieto demais que o diagnóstico era infalível: oio-gordo, mau-oiado, quebranto. Se aparecesse coceira na pele e surgissem pontos vermelhos era cobreiro.
Nossas benzedeiras eram mulheres que com seus ofícios contribuíam para aliviar o sofrimento humano. Geralmente eram casadas, pobres, mães de alguns filhos, que conheciam rezas, ervas, massagens, cataplasmas, chás e simpatias, e tinham um quê de mistério, que lidavam com a magia, feitiçaria e bruxaria. Ela era uma cientista popular que possui uma maneira muito peculiar de curar: combinava os místicos da religião e os truques da magia aos conhecimentos da medicina popular.
Seguem algumas jaculatórias usadas por benzedeiras:
1) Espinhela caída:
Jesus Cristo quando andou no mundo, três coisas ele levantou: arca, vento, espinhela caída. Assim eu peço a vós que levanta esta arca pelo amor de Deus.
2)Cobreiro
Na proteção do senhô/Que fez o céu e a terra,/Eu entrei em Roma, em romaria/Benzendo cobra, cobraria./Corto cabeça, corto meio, corto cobreiro./Mal entrei em Roma, romaria,/Benzendo lagartixa,, lagartixaria,/Corto cabeça, corto rabo , corto meio./Entrei em Roma, romaria,/Corto cabeça, corto rabo, corto meio, corto cobreiro./Mal entrei em Roma, romaria/benzendo sapo, saparia,/Corto cabeça, corto meio, corto meio, corto rabo,/Corto cabeça, corto cobreiro,/Com os poderes de Deus e da Virgem Maria.
3)Quebrante, mal-olhado, olho ruim:
Com dois eu te vejo,/três eu quebro encanto/a palavra de Deus e a Virgem Maria é quem cura/Quebrante, mal-oiado e oio ruim,/Leve o que trouxes/Deus, benza (quem estiver lendo) com a santíssima Cruz./Deus defenda de mau-olhado, de quebrante, de macumba,/De feitiço, de malefício e de todos os males que lhe fizeram./Quem está fazendo ferro?/eu sou aço;/Quem está fazendo é o demônio/e eu vos embaraço, com os poderes de Deus, Jesus e a Virgem Maria.
4)Erisipela
São Pedro quando andou pelo mundo encontrou fulano ... com isipela, Isipela – isipelão, que ele tem no tutano, deu no osso, do osso deu na carne, da carne deu no sangue, do sangue deu na pele, da pele caiu no chão, isipela, isipelinha, isipelão.
5) Dor-de-cabeça:
Saiu Juliana mais Fabiano/Encontrou Nossa Senhora./Ela perguntou o que tem Juliana mais Fabiano/Dor de cabeça, sinhora.Quer que eu ti sare?/Sararei Sinhora./Ajunta caco cum caco, muleira cum muleira/Estarei curado cum os puderes de Deus e da Virgem Maria.../Cãimbra de sol/Sereno somá/tia essa dô de cabeça/E joga nas ondas do mar./Deus é salvo, Deus é virge, Deus é claridade/Seu vosso dia/Sarai esta dô de cabeça com esta Ave Maria.
6) MAU-LEITO NAS JUNTAS
Eu costuro carne quebrada/Nervo torto e osso rendido (3 vezes)/Carne quebrada,
Nervo torto e osso rendido/ Assim eu costuro (3 vezes)/ Carne quebrada, Nervo torto e osso rendido/ em louvor de São Flutuoso/ Isso mesmo eu coso.
7) Mau-de-engasgo
Homem bom e mulher má/ esteira velha Brás deitar/ São Brás, Bipo, disse./ Nosso Senhor confirma o que eu vou dizer/ Este engasgo soube ou desce/ Com os poderes de Deus e da Virgem Maria/ Ela tinha uma comida de peixe escondida/ Esperando o Bispo sair/ Ela pôs a comida e comeu/ Aí se engasgou, lembrando que o Bispo/ Desengasgaria/ Mandou o marido atrás dele que se encontrava/ À sombra de uma árvore/Já sabendo do ocorrido aí mesme ele rezou/ A oração/ E a mulher má se desengasgou.
8) Doença-do ar
Fulano (...)/ Ar te deu/ Ar te daria/ Quem te curaria/ ó Virgem Maria/ se for/ ar-do-sol/ ar-do-fogo/ ar-da-água/ ar-da-lua/ ar-das-estrelas/ ar-de-constipação/ar-de foia/ A Ave Maria/ Quem te curaria.
As jaculatórias eram rezadas sobre o local enfermo do corpo da pessoa que estava sendo benzida, e a benzedeira as repete]ia três vezes. Manipulava ramos de plantas (arruda ou guiné, pimenta malagueta ou fedegoso), ou o rosário acompanhado do gesto eficaz do sinal da cruz, antes, durante e depois da benzeção. Como parte do ato de benzer, as jaculatórias eram oferecidas a um santo de devoção da benzedeira: São Bento, Jesus Cristo, Nossa Senhora do Alívio, São Brás, Santa Efigênia ou Todos os Santos.
Na benzeção por mau-jeito ou rendidura , ao chamar o nome da criança, a benzedeira rezava o credo, apontando para o local enfermo. Riscava três cruzes de sal no mesmo local, alternando-as até completar a marcação que era feita num rosário de contas que, em pé, ela segurava. Finalizava o ritual chamando novamente o nome da criança, rezando um Pai Nosso e uma Ave Maria e suplicando a cura a um santo de sua devoção: São Judas ou Nossa Senhora da Aparecida.
Sobre a eficácia da benzeção, segundo a Profa. Elda Rizzo de Oliveira, em sua obra A BENZEÇÃO, publicada pela Editora Brasiliense, “a Organização Mundial de Saúde já recomendou aos países subdesenvolvidos que valorizassem seus curandeiros como meta para resolverem seus problemas de saúde até o ano
Muitas pessoas afirmam terem sido curadas por benzedeiras. Outras, no entanto, dizem que não passa de crendice popular, tapeação.
Como dizia Shakeaspere: “existem mais mistérios entre o céu e a terra do que a nossa vã filosofia pode imaginar”.
Parodiando o grande filósofo espanhol Ortega y Gasset ouso afirmar: Não acredito
A bênção Donas Sagá, Corina, Catarina, Conceição, Pititica e Amélia.
A procissão saía da casa da Dona Rosa Vieira, na rua da Carcacena, em direção a Matriz Jesus Menino Deus ao som da Banda de Música, dos fogos de artifícios e dos cantos religiosos entoados pelos fiéis. Os anjos com suas asas - simbolizando os querubins, arcanjos e serafins – destacavam-se na procissão. Pe. Celso Campos Sales aguardava a chegada dos fiéis para o grande momento da coroação que acontecia após a missa. Os anjos e virgens se posicionavam no altar. Quando o anjo coroava Maria, os sinos da igreja repicavam, a banda tocava, os foguetes explodiam nos céus e uma chuva de pétalas de rosas caía sobre a santa. A igreja era só emoção. Terminada a cerimônia, acontecia a tão esperada distribuição das sacolinhas recheadas de docinhos. Alguns anjos distribuíam também santinhos como lembrança da sua primeira coroação.
Faziam parte dos festejos de maio e junho o desafiador pau-de-sebo e as barraquinhas armadas nas proximidades da igreja ou do coreto, onde eram vendidos canjica, pastéis, cachorro quente - com o molho irresistível da Madrinha Alaíde do Zé Corino ( meu saudoso padrinho de crisma por quem sempre tive uma admiração e um carinho todo especial). A barraca da pescaria com seus brindes enterrados na caixa de areia com uma argola do lado de fora, fazia a alegria da criançada e até mesmo dos adultos. Tinha também a barraca do coelho cheia de casinhas de madeira numeradas. Enquanto não se vendia todas as fichas, o coelho ficava preso numa casa sem porta no centro do tablado. Quando a última ficha era vendida, era solto e corria em direção a uma casa. Se o número da casa escolhida fosse o mesmo da sua ficha era só pegar o prêmio: brinquedo, caneta, borracha, dentre outros atrativos. Os prêmio eram doados pelos comerciantes e paroquianos. colaborar. Para que as barracas pudessem funcionar ocorria um trabalho solidário. Os organizadores se encarregavam de preparar o festejo e conseguir as doações. Tudo era doado: desde o molho do cachorro-quente até o óleo para fritar os pastéis.
O leilão, que ocorria quase no final do festejo, era aguardado pelos arrematadores. Nosso leiloeiro oficial, o Vista-Alegre, fazia a oferta das prendas com o tradicional “quem dá mais , dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três. Vendido para ...” As prendas: frangos e lombos assados, rocamboles, pudins, garrafa de vinho e outras iguarias, eram carinhosamente preparados e doados pelos paroquianos. O dinheiro arrecadado era revertido para as obras da Igreja. A animação tomava conta de todos. As pessoas se encontravam, conversavam e divertiam-se juntas(grifo meu). A nossa Banda de Música encantava a todos “cantando coisas de amor” , sob o comando competente do Maestro Milagres. Como eram gostosos os nossos maios e junhos no início da década de 60!
No mês de junho, no dia de Santo Antônio, na Praça Santo Antônio, era celebrada a cerimônia religiosa da oferta dos lírios ao santo casamenteiro pelos meninos. Os meninos que participavam do cerimonial colocavam um lírio nas mão do santo. A Praça era enfeitada com bandeirinhas coloridas. Armavam-se as barraquinhas e a festa era celebrada com alegria. As pessoas se encontravam e divertiam-se juntas. Celebrava-se a vida!
As festas juninas, com o tradicional pau-de-cebo, comidas típicas, quadrilhas, fogueiras, fogos de artifício, busca-pé, a batata doce assada na fogueira, o sanfoneiro e a nossa sempre presente Banda de Música, ofereciam uma verdadeira terapia para os nossos problemas. Mesmo estando bastante frio, as pessoas se agasalhavam e participavam dos festejos. Naquela época os seres humanos conversavam entre si! O estar só era substituído pelo estar com.
Um dia a televisão fixou suas poderosas antenas
Hoje os consultórios dos psiquiatras, psicólogos e psicanalistas estão cheios de pessoas procurando o bálsamo para seus medos, depressões, inseguranças, estresses e solidão. As maravilhas do avanço tecnológico e científico não conseguiram libertar o homem da ansiedade e da solidão. As indústrias farmacêuticas lançam anualmente novas drogas que prometem reduzir a ansiedade e eliminar a depressão. É como se fosse possível comprar a felicidade através do uso dos antidepressivos. Combatem-se os sintomas e as causas continuam produzindo suas conseqüências desastrosas.
Não podemos deixar morrer as tradições do nosso povo. A história está cheia de exemplos. Aconteceu com os nossos índios, com os Incas e com os efeitos devastadores do imperialismo na América. A cultura de um povo é sagrada. Suas tradições são intocáveis. É a sua identidade.
Recreio precisa libertar-se do marasmo cultural que tomou conta da cidade. Que Deus ilumine o próximo prefeito para que tenha sensibilidade e possa resgatar e preservar as tradições do nosso povo investindo no setor cultural, dando vida e alegria à nossa querida cidade. Amém!



Armando Sérgio Mercadante
“Com certeza se esqueceu. Ou então
felicidade é brinquedo que não tem”.
(Assis Valente)
Nos tempos de ouro da Radio Nacional não perdia um capítulo das estórias do Tio Janjão, do Anjo e do Jerônimo, o Herói do Sertão, acreditava ortodoxamente
Recreio se enfeitava para a chegada do grande dia. As músicas natalinas tomavam conta da cidade. A Missa do Galo era aguardada pelos fiéis. A Casa Araújo, Bizinho, Nadinho e Carcacena, e outros estabelecimentos comerciais, se enfeitavam para receber os fregueses grávidos do espírito natalino. Os fornos das padarias ficavam lotados das carnes que iriam fazer parte das ceias de natal.
No dia 24 de dezembro, às 5 horas da tarde procurava minha cama para dormir. Era muito grande a expectativa de encontrar os presentes ao lado dos meus sapatos. Ao mesmo tempo, não queria dormir para ver se pegava Papai Noel entrando pela chaminé da minha casa. Não tinha jeito. Na medida em que as horas iam passando, meus olhos pesavam e o sono acabava frustrando o meu desejo. Todo ano era a mesma coisa.
No grande dia, acordava e corria para a árvore de natal e lá estavam os meus presentes. Abria apressadamente os embrulhos e logo já estava brincando no jardim da minha casa.
O almoço era na casa dos meus avós maternos. O encontro com primos, tios e avós sempre foi muito agradável. Foi uma tradição que se manteve por muito tempo.
Não me lembro quando descobri que Papai Noel não passava de um bonito sonho inventado para alegrar nossa infância. Que me perdoem os psicólogos, se fiquei traumatizado com a descoberta da mentira até hoje não encontrei esse tal de trauma. E a Dona Cegonha? Mesmo com a barriga da mamãe crescendo a gente não esboçava nenhuma atitude cética. Quando arriscávamos uma pergunta os adultos tinham sempre uma explicação “absurda” , mas que satisfazia a nossa curiosidade. Não me lembro de ter visto uma cegonha voando pelos céus de Recreio com um bebê num lençol amarrado em seu bico. No mundo da fantasia não existe o impossível.
Na semana que antecedia ao grande dia, Mão-Pelada , o nosso inesquecível Papai Noel, saía pelas ruas com a roupa típica, barbas de algodão e um saco nas costas cheio de “presentes”. Usava um megafone para fazer propaganda da loja do Bizinho. Para nós, ver Papai Noel “ao vivo e em cores” era a realização de um sonho que não cansávamos de sonhar. É bem verdade, que não era igual ao tradicional velhinho: gordo , bochechas avermelhadas dirigindo o seu trenó conduzido por belos alces. Mas era o nosso Papai Noel! O que faltava na realidade a nossa imaginação infantil completava .E o nosso Mão-Pelada sofria aos nossos olhos uma verdadeira metamorfose, transformando-se no mais belo Papai Noel do mundo.
Obrigado Mão-Pelada pela alegria que nos proporcionou. Você faz parte das nossas belas recordações. Recordar o natal da minha infância é também vê-lo pelas ruas vestido de Papai Noel.
Sei que sou um privilegiado porque posso relatar essas recordações tão bonitas. Infelizmente, muitas crianças ainda sofrem na pele o desabafo do compositor Assis Valente: “Eu pensei que todo mundo/ Fosse filho de Papai Noel/ Com certeza se esqueceu/Ou então felicidade é brinquedo que não tem”.
É pena que o espírito natalino dure poucos dias. Impressiona-me como as pessoas ficam alegres, solidárias e descobrem como é bom fazer o outro feliz. A escolha cuidadosa de um presente é, na verdade, uma demonstração de amor. Findo o Natal, as coisas voltam como eram antes.


Armando Sérgio Mercadante
“La jeneusse n’est pás une période de la vie, cést un état d’esprit; il consiste dans une certaine forme de la volonté, une disposition de l’imagination, une force des émotions(...)” (Samuel ULMAN)
Profª Lia Albuquerque Monteiro, ou Madame Lia (pronuncia-se Liá), como gostava de ser chamada carinhosamente pelos seus élèves (alunos), transcendeu seu tempo com suas atitudes, jovialidade, entusiasmo e uma verdadeira paixão pelo novo.Vibrava com os jovens, porque também seu coração irradiava juventude. Estava sempre antenada aos acontecimentos do seu tempo.
Quem teve o privilégio de ser seu aluno pode sentir em atitudes seu espírito jovem, seu entusiasmo e o amor que dedicava ao magistério, especialmente o ensino da língua francesa, qualidades estas que utilizava para conviver com os adolescentes da minha época.
Fui seu aluno, e pelo fato de morarmos na antiga Rua Campo Limpo, hoje Rua Serafim Coimbra, tive a oportunidade de conviver mais freqüentemente com ela.
Onde e com quem aprendeu o francês, que tanto amou na vida e na sala de aula? Na Faculdade do Esforço, do Autodidatismo, nos Cursos de Aperfeiçoamento e por Correspondência, onde pacientemente colocava os discos em sua eletrola para aprimorar a pronúncia, o conhecimento e aprender novas canções objetivando motivar suas aulas. Só sei que aprendeu e partilhou com alegria e entusiasmo os conhecimentos adquiridos. Se a semente não for lançada ao solo...
Convencia-nos com facilidade, de forma agradável e enérgica, a ler, traduzir, falar e a cantar as chansons que ainda permanecem vivas em minha memória.
Sob o ponto de vista didático e pedagógico, transcendeu o seu tempo. Dava atendimento individual àqueles que encontravam dificuldades em assimilar a nova língua, suas aulas eram agradáveis e seus conselhos sempre bem recebidos. Se fosse preciso, dava aula particular em sua modesta residência sem nada cobrar. Seu salário era o sucesso do seu aluno.
Após a Prova Final, quem não conseguisse média, iria assim mesmo para a série seguinte (estudávamos Francês na 3ª e 4ª série ginasial) onde ela, incansavelmente, trabalharia as dificuldades apresentadas pelos alunos “reprovados”. A única exigência para os reprovados serem promovidos para a série seguinte era jurar que iriam estudar no próximo ano e cantar na ponta da língua
Seu grande sonho foi conhecer sua França querida. De todos os cantores franceses, tinha preferência por Gilbert Becaud e a grande Edith Piaf. Dizia que suas pronúncias eram claras e perfeitas.
Mais tarde fiquei sabendo que a oportunidade de realizar o grande sonho de sua vida iria se tornar realidade. Mas Dona Lia não quis (ou não pode) conhecer a França. O coração tem razões que a própria razão desconhece. Ou, quem sabe, a vida às vezes puxa o nosso tapete na hora de realizarmos um sonho. Até hoje desconheço os motivos da desistência. Fiquei perplexo.
Nos meus 35 anos de magistério sempre procurei me tornar digno de “desatar a correia de suas sandálias”. Não sei se consegui. Quem foi seu “élève” sabe muito bem o que eu quero dizer.
No início das aulas:
- Bonsoir mes élèves!
- Bonsoir Madame Lia!
Ao findar a aula:
- Bonne nuit mes élèves!
- Bonne nuit Madame Lia!
A cada aula um exemplo de competência, seriedade e amor à arte de educar. Seu segredo era ensinar com paixão e desejar que seus alunos compartilhassem também deste sentimento profundo. Seu entusiasmo e sua “jeneusse” eram contagiantes. É importante dizer que amava o Brasil com orgulho. A França era a sua segunda pátria.
Hoje leio francês graças à Dona Lia. Quando em 1968 fui aprovado no vestibular em Muriaé, na prova oral de Francês tive que ler e traduzir para a Irmã Cândida alguns trechos do livro Le Petit Prince. Ao terminar minha prova ouvi com orgulho da Irmã Cândida:
- Très bien!
Meus olhos lacrimejaram e meu coração bateu mais forte. Em voz bem baixa disse:
- Merci beaucoup (muito obrigado) ma professeur!
NOTA: Estudei com Dona Lia em 1962 e 1963, quando conclui meu Curso Ginasial. Foi a paraninfa da minha turma. Em 1968, após cinco anos sem estudar francês, fui aprovado na prova oral de francês no vestibular da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Santa Marcelina de Muriaé, apenas com os conhecimentos adquiridos no Curso Ginasial.
Minha poesia preferida
CHANTECLER
Je suis Chantecler.
Mon histoire est três triste!
Je croyais que mon chant faisait lever le soleil.
Um jour, je me suis endormi.
Les heures passèrent. Le matin arriva.
Et je dormais toujours.
Tout à coup, j’ouvris les yeux.
Le soleil brillait déjà dans le ciel.
Il faisait clair.
Le soleil s’était levé sans moi!
Quelle disillusion! Quelle tristesse!
TRADUÇÃO
O Chantecler(*)
Eu sou o Chantecler
Minha história é muito triste
Eu acreditava que meu canto fazia o sol nascer
Um dia,eu adormeci
As horas passaram. O amanhecer chegou.
E eu continuava dormindo.
De repente, abri os olhos.
O sol brilhava desce cedo no ceú.
Ele clareava o dia.
O sol tinha nascido sem mim!
Que desilusão! Que tristeza!
(*) Galo que acreditava que o sol só nascia
depois do seu canto.